Mais uma vez enalteço um comentário deixado à minha pessoa, (um abraço para o Nosfet) e publico o texto sugerido. Deveras uma pérola literária, que terei o máximo gosto em incluir neste nosso cagatório público de ideias. São contribuições como esta que ajudam a lapidar o grande diamante em bruto que é a filosofia excremental, e solidificam este blog unificando a classe cagadoira deste país. Os meus mais sinceros agradecimentos.
A sanita de Platão- Bizantina, meu caro, tanto que esquecerá a sua pertença a este lugar.
O homem falava da sanita da casa de banho do terceiro restaurante da terceira rua da terceira aldeia, mais ilustre que a comida que à mesa nos dispunham, após cuidadoso pedido, após alongada reflexão sobre a carta.
- Melhor que o cafezinho que servem depois de duas postas à mirandesa insabidas, é mesmo uma longa cagadela na mais ilustre louça nacional.
Deixei o cavalheiro afastar-se, gargalhando após o serviço de informação que me havia prestado. Já antes ouvira sobre a sanita do estabelecimento onde presentemente me encontrava. Vale bem o sacrifício de lá ter de ingerir uma refeição, diziam nas esquinas e nos bancos de jardim. Pois melhor será ir comer a outro lado e ir lá cagar, pensei a dada altura, mas a política da casa de restauração é clara, como posteriormente verifiquei, só javarda as suas louças quem se deixar javardar pela sua cozinha, algo semelhante a um consumo mínimo, compreensível resolução de gestão, há que rentabilizar a atracção, no presente caso trata-se de uma sanita, mas podia bem ser uma selecção de futebol por detrás de um vidro, ou um poeta pendurado pelas pernas, ou um gato de botas. Entre toda a reflexão descrita nas anteriores linhas, tive ainda oportunidade de observar que o homem, de cara rasgada num sorriso de aliviada satisfação, se afastara sem lavar as mãos. É um sonho, garanto-lhe, um sonho, afirmou com palavras roucas antes de desaparecer na dobra de uma coluna de cimento.
Hesitei, não me envergonho de o admitir. Funguei uma lufada de ar, não era desagradável, tendo em conta. Empurrei lentamente a porta de madeira, o compartimento era pequeno, o papel higiénico pousado sobre a coluna de água, a coluna de água da sanita. Confesso, amigos, que nunca em toda a minha vida vi coisa assim. Deslumbrado, sem palavras que possibilitassem a justa descrição daquilo que presenciava, ergui a tampa de louça que protege o bordo de louça, ergui o bordo de louça que protege o bordo da sanita, e então ficamos eu ali e ela ali, convidativa, hipnotizante, onírica, belisquei-me. Prontamente arreei as calças e acomodei as nádegas na indescritível suavidade da louça daquela cagadeira. Os olhos marejaram-se-me com o salgado líquido do qual são compostas as lágrimas, tudo à volta diluiu-se numa névoa branca e esponjosa, a porta com frases como, faço mamadas, e, procuro gay simpático e bem dotado, desvaneceu-se, o tecto esboicelado esfumou-se, as paredes sujas de marcas de dedos castanhas submergiram no tecido que compõe os sonhos. Até que uma voz, à qual não fui capaz de associar um sexo, falou-me do compartimento contíguo,
- Onde está sentado? No bordo de louça ou no próprio bordo da sanita?
Respondi,
- No bordo da própria sanita.Disse-me,
- E os motivos pelos quais fez o que fez?
Respondi,
- Sempre me disse o meu pai, quando fora de casa, senta-te no bordo da própria sanita, pois as outras pessoas sentam-se no bordo anterior, amovível, supostamente protector, e as outras pessoas não as conheces tu, as outras pessoas não sabes tu que género de bichos, bactérias e parasitas carregam nas nádegas.
Ouviu-se um grunhido e o som de algo a chapinhar na água.
Disse-me,
- Pois também isso me disse o meu pai, tal como lhe disse o seu pai antes dele, meu avô, tal como lhe disse o seu pai antes dele, avô do primeiro, meu bisavô. Julgo que a genealogia deste conceito remete para as raízes mais profundas da higiene em retretes públicas. Sabe onde se encontram as minhas nádegas acomodadas, neste preciso momento?
Respondi,
- Não.Disse-me,
- No bordo da sanita, tal como toda a gente faz, para se proteger dos bichos, bactérias e parasitas dos outros, aqueles que não sabemos quem são. Ora, se todos nos protegemos do mesmo modo, que pode concluir?
Estremeci. A minha busca por segurança era a busca da Humanidade, e no seu conjunto tinham todos encontrado somente a perdição. Os meus gestos eram os gestos do mundo, todo o mundo estava sentado naquele pedaço de louça oval, todas as nádegas que já existiram, existem e existirão. Ergui-me de um ímpeto. Arranhei um pedaço de papel no extremo do recto, subi as calças e saí.
Levava o cu da Humanidade no meu cu. Uma sanita pública é uma caverna de Platão.
in O Quarto do Pulha por Leandro Ribeiro